Ali naquela grama há um mundo invisível de gostos, cheiros, amores, desamores, ilusões, culpas, alegrias e tristezas. Lá reina a mesmice. Um mundo onde todo mundo é igual, o marido olha pra esposa e amando-a ama a si próprio. O adolescente desabrocha rindo do seu semelhante. O mar se une com a areia sem diferença de cor, textura ou gênero. É tudo uma única coisa, um único mundo, repleto de filosofia, aquela mesma que abrange o jardim da sua casa. A grama é única, é um mundo sem diferenças, que de tanta identidade não é nada, é só uma mesmice.
Foi lá, nesse mundo repleto de repetições, que nasceu uma flor, selvagem, no meio daquela pastagem de uma cor só. Suas pétalas eram lilás com um degradé vermelho em direção ao seu pólen, o talo tão sensível comparado com as outras rosas, ou flores em geral, mas muito mais forte do que as gramíneas que habitavam seu local de nascença. Via-se a Flor ao longe na vasta paisagem, era como uma estrela solitária num céu negro, seu brilho guia os navegantes, a Florzinha guiava o sonho de amor de qualquer um. Mas por sua beleza era impossível arranca-la dali, era como uma rainha em meio a imensidão de súditos, mas nenhum podia te satisfazer-lhe, era única, estava confinada a viver uma vida inteira, em todo a sua eternidade, de solidão.
Para os cidadãos da grama a Flor era um presente de Deus e estes se viam na obrigação de protege-la, mas se viam cada vez mais triste ao olhar para a Florzinha e a ver tão triste dentro de si, então os homenzinhos trouxeram presentes de todos os tipos, todos verdes e nada agradava, e as mulherzinhas, também verdes, faziam todos os banquetes verdes do mundo da grama mas nada saciava sua fome. E passou muito tempo presa em si, e naquela mesmice onde tudo era verde. Muito tempo...
Um dia um homem transparente chegou, seu nome era Vento. Só era possível sentir o seu toque, a Florzinha tola estava apaixonada, não o via, só o sentia, seu toque, seu cheiro, nada mais era verde, agora era invisível. Descobriu um dia que podia ouvir o seu amado, ele sempre que passava sussurrava:
-Flor...
E aquela voz de veludo entrava nos seus ouvidos e lhe causava arrepios, estava excitada com aquela voz, aquele toque, aquele cheiro, mas não o via, só imaginava-o dentro de si, arrepiando-a, transformando o seu gineceu com aquele toque misterioso, fazendo fluir o seu polem, fertilizando-a, amando-a. E pela primeira vez sentiu-se Flor:
-Onde está você meu amado? Como pode me tocar, fazer com que eu sinta o seu cheiro, transcender-me em sensações sem ao menos aparecer?
-Eu não sou o amor, Flor, quando te toco você sente por que sem a sua sensibilidade, diferente da grama que só balança você tem a beleza de espalhar-se pelas bocas verdes das gramíneas. Quando pensa sentir o meu cheiro é só o cheiro que eu trago de você quando rodamoinho ao seu redor, é o seu cheiro, não o meu. E por que transborda-se em sensações?
-Me perdoe, acho que entendi tudo de maneira errada, sou mesmo uma tola, e vou viver com toda essa beleza sem que ninguém me ame...
-Não respondeu a minha pergunta Flor, por que transborda-se em sensações?
-Você me faz assim Vento...
-Eu vou mudar Flor, o meu toque vai mudar com as estações, durante um tempo te darei esse prazer, esse fervor, durante outros só trarei dor e sofrimento, não vai me amar para sempre o seu amor vai mudar como mudam as estações, assim como eu vou.
E então no fim de um certo período a Flor se deixava apenas levar pelo toque do Vento, até que este foi ficando quente, e arderam-te as pétalas. O Vento não sussurrava mais, agora gritava nos seus ouvidos:
-FLOR!
Aquilo durou meses até que veio um homem de capote, molhado, ia e vinha sempre sua presença era inconstante sempre com pressa seu nome era Chuva. A Flor o via como um herói pois quando chegava lavava suas feridas e esfriava o Vento, aliás este ficava imperceptível quando o primeiro chegava. Um dia Chuva resolvera ficar por mais tempo, a Flor se viu envolvida com a proteção que este trazia:
-É você o meu amor, veio me tirar da mesmice, viveremos para sempre juntos, curará minhas feridas sempre que puder?
-Não sou amor de ninguém, não tenho tempo, cuido de muitos lugares. Curar? Não curo ninguém...
-Mas você lavou minhas feridas e ainda levou o Vento embora...
-Lavei, mas não foi a minha intenção cura-las, se o fiz sozinho me perdoe...
Indignou-se a flor:
-Claro que fez sozinho, quem mais haveria de te-lo feito?
O Chuva, pacientemente explicou:
- Meu dever é só molhar, lavar, ativar a fertilidade das coisas, não venho para curar, você só se cura com aquilo que realmente te machuca, talvez quando mandei o Vento embora ele mesmo levou as suas chagas para traze-las noutra hora...
Assustada perguntou:
-Vai voltar? Não pode, eu não quero... Chorou, mas Chuva limpava suas lágrimas - pra que tanto carinho, limpa o meu pranto, por que essa assistência se não vai ficar comigo? Cuidar de mim?
Continuando paciente o Chuva explicou:
-Vê, não tenho a intenção de te curar, nem de dar-te o consolo, se é que realmente precisa dele, eu só estou aqui para lavar-te, o Vento bate, eu renovo-te, não curo nem levo ninguém a lugar algum, apenas faço o que sempre faço, eu lavo, e trago a fertilidade.
A flor por um instante parou, e percebendo que ali existia alguma falta de sentido indagou:
-Fertilidade?! Eu não conheço...
Chuva riu-se:
-Ah! Queria poder te levar a campos de rosas iguais a você, mas todas são tão tristes por viverem em mesmice...
Curiosa perguntou:
-Existem outras iguais a mim?!
-Sim minha cara, e tão belas quanto, mas todas são mais tristes. Você é a flor mais feliz que eu conheço...
-Então elas devem ser tristes mesmo.
-São, por não valorizarem quem realmente são, vocês flores tem isso, não se veem em vocês mesmas, estão sempre depositando a sua coragem nos outros, em mim, no Vento, no Raio Solar...
-Raio Solar?!
-É, o que virá depois de mim, cantando e te livrando do enjoo que eu vou te dar, esse enjoo que é a fertilidade, mas assim como todas as coisas boas do meio onde você vive, vem de você, é exclusivamente seu, somos só agentes do destino. Ativamos coisas já dentro dos próprios seres.
A Flor se conformou com aquilo, queria entender mais sobre agentes do destino mas o Chuva ficou como o Vento, ficou constante e depreciativo, então o Vento voltou e em conjunto acabaram com a paz da Florzinha, aquilo tudo era estranho pensou: "eles veem e vão sempre construindo, sempre destruindo". No fim era só dor, e a Flor estacionou em sua depressão e não falou durante todo o inverno. Aquilo lhe causara um enjoo realmente terrível: "No fim os agentes das nossas desgraças sempre tem razão".
Com a mudança da estação surgiu um velho, amarelinho, tão educado, saudava todos de manhã, e de noite vinha o seu irmão azul perolado. Eram gêmeos mas desunidos pela profissão de agente do destino, só se viam quando o sol estava a minutos de se por, e de nascer. O primeiro era Raio Solar, o segundo Raio Lunar, seus sobrenomes vinham na frente ao contrario dos normais. Eram felizes, e vinham tocando bandolim. Não podendo esquecer que dividiam o mesmo bandolim e a mesma linha de pensamento, um dava sequencia as canções do outro assim como as conversas, cantavam para a flor, versinhos infantis:
"É tão linda, mas tão triste,
talvez a mais bela que existe,
quanto mais em ti guarda o fel,
mais aqui colhem o mel.
De primeira a Flor não deu importância, não tinha ciência de nada daquilo só queria que eles pegassem dela o que quisessem e fossem embora, como o Vento e a Chuva: aproveitadores.
Mas eles não se aproveitavam, só cantavam. No inicio falavam de mel, e nada fazia sentido até que abelhas chegavam, a Florzinha se sentia tão estranha, tão bem, era como dando a vida àqueles pequenos seres. Sentiu-se fértil como o Chuva falara. Então a alegria da Florzinha voltava a media que o mel ia saindo:
-Vocês vão me machucar algum dia?
-"Machucar, machucado, machucando.
Você imagina alguém fazendo em outrem?
A gente, te diz Florzinha, ninguém.
E você que vá pensando".
-Eu não entendo nada do que dizem. Por que agora que estou bem não vão me fazer mal?
-"Mal, não fazemos mal,
onde você vive nem se fosse.
O mel transformando em sal,
ao invés de produzir o doce"
-Mas como posso fazer algo tão bom para alguém se para mim nada tenho, melhor era viver então na dor das minhas irmãs distantes, que todos falam. Já que quanto mais fel mais mel. A questão não é dar, é receber também, e de imediato!
-"O sofrimento antecede o sorriso.
Se não entende o porque do fel,
pode se esforçar para dar o mel.
E então virá todos atender o seu capricho".
-Mas como, se eu sou única nessa campo?
-"Nenhuma dor ou solidão é pra sempre,
o sempre nem mesmo existe,
nem pra a gente,
que sabe qual o limite"
-Então um dia eu vou ter alguém, semelhante do meu lado?!
-"Quem sabe Flor,
quem sabe,
esse papo de amor
ninguém sabe".
Sorriram. E foi recíproco. A Flor doou todo o seu meu, com tanto carinho que esquecera todo o sofrimento, esquecera do Vento que a beijara e outrora gritava como um urso feroz, do Chuva que aparentemente expulsava o Vento e a curava e então açoitava-a com seus pingos cortantes. Enfim gostara de conhecer os irmãos Raios, ela sabia que eles eram a mesma pessoa, só que condenadas a viver duas vezes, nunca dormindo, sempre trocando de lugar, estando em dois lugares ao mesmo tempo um cantando a noite, o outro tocando ao dia. Era um só. Triste de ver.
Numa manhã, Raio Solar acordou a Flor com o som mais alegre do seu bandolim até aquele dia, e quando a Flor olhou para o lado lá estava, um Broto, azul com amarelo, parecia uma mistura de todos os seus amores, o detalhe leve do degradé antes do azul trazia o toque transparente do Vento, o azul sutil do Chuva e do Raio Lunar, por fim, antes do polem o amarelo se fundindo ao centro do Broto, o amarelo de Raio Solar.
A Flor pois se a chorar de alegria, o Broto, que tinha a voz mais linda que já ouvira perguntou com tamanha ousadia:
-Por que choras, meu amor?!
-Porque sei que vais me deixar e levar algo consigo...
-Eu já levei, e trouxe a mim para você, vim aliás de dentro de você...
-Como pode dizer isso?
-Eu sou a voz do Vento, a cura da Chuva, a canção do dia e da noite... O teu desejo, o teu pesar são todos seus e amedrontam a mim também, tenho em mim tudo que um dia temeu, e que um dia amou.
-Então...
-Eu vim como seu desejo a cada hora que o destino pregava peças. Eu sou o teu amor.
E aquele campo verde já não era a mesmice de sempre, tinha um rei e uma rainha, ou uma rainha e um rei. E até hoje podemos ver esse reino quando olhamos para nós mesmos e nos perguntamos por que a vida é tão injusta, por que nada muda, por que temos sempre que viver sob testes, e por que não podemos ser felizes sempre. Por que sem as provas da vida, nunca saberemos o que realmente queremos, o que realmente importa, o que realmente amamos.
Raio Solar/Lunar terminou:
"E todo dia foi uma nova canção,
assim se fizeram noventa
colorindo toda a estação"
Felipe Sousa Cerqueira.