Nunca estive tão perto, de um ser místico, de uma força tão poderosa! Deixe-me explicar melhor:
Quem nunca teve experiências com o outro mundo?! Geralmente isso ocorre pela dor ou pelo amor(ou foi o que me disseram). Reaverei as palavras ditas pelo meu amigo, na maioria dos casos ocorre mesmo pelo medo absurdo. No meu caso, inesperadamente, aconteceu por amor, ou pelo menos um esboço disso.
Desenhado na parede, lá estava eu. Imaginem uma parede no meio do nada, flutuante, mais ou menos uma pintura de Picasso. Desenhada na parede estava ela, outra parede, paralela a minha, porém flutuantemente dispersa em som, cores, extratos, muito semelhantes aos que me agradam.
Eu parede de reboco, bruta, rústica, ouvindo, vendo, sentindo, aquilo tudo sem um tostão de coragem para me inclinar e cair. Fez-se outra parede, e nos ligou, agora eu teria o mesmo extrato e a mesma cor, era tudo que eu queria. Outra subiu. Eramos perfeitamente um quadrado, os sons estavam mais altos, nossa acústica estava feita. E tudo ficou escuro quando veio o telhado, só a sentia de cheiro, o som era insuportavelmente perturbador agora, era pesadelo. Eu me doía e gemia pelo frio fino da loucura, as músicas assustavam, as batidas faziam palpitar o meu peito, era tudo escuridão e dor. Ouvi um gato riscando o telhado, seu grito era como um tocar de trombetas, pensei em salvação. Nada aconteceu. Quanto tempo se passou, semanas! Sentia agora umidade, toque, agonia mais horrenda nunca senti. Escuro. Como um cego que perdera a visão aos trinta anos, me sentia limitado a tentar adivinhar as piores coisas que me aconteciam. Foi aí que tudo melhorou, fui coberto por um agasalho denso, parecia-me um abraço, pensei nela, foi aí que percebi que a música tinha parado, com tanta dor, frio, quando mais padecia, deixei-me envolver por sensações atoa. Medo. Onde estava ela, silenciada, demolida?! A agonia voltara, e o pior, havia saudade e dentro dela silêncio, e dentro envolvendo tudo isso escuridão. O agasalho já não me servia de nada. Então, do céu veio, portas, janelas, luz. E o meu agasalho era cor de anil, tinha cópias minhas fechando um cubo. E a minha parede gêmea paralela a mim falava-me de uma parede rosa que via e desejava todo dia, esperando voltar o seu amado de reboco.
Felipe Sousa Cerqueira.