sábado, 30 de janeiro de 2010

Rua da Lembrança

Caminhava sozinho, em uma rua que parecia não ter fim, cada lembrança, triste ou feliz, ia recheando a rua como prédios, os não tão bem lapidados seriam as lembranças rápidas, os casebres sombrios seriam as lembranças esquecidas pela alma, os prédios ricos e de arquitetura genial seriam as lembranças alegres. Porem, das alegrias vem as tristezas, as decepções, e nada naquela rua vai ser perfeito, algumas construções podem parecer magnificas por fora, mas por dentro sempre há um cómodo triste.
Naquela rua, havia uma casa em construção, e o nosso personagem pôs-se a observa-la, era uma casinha simples, no meio de uma vizinhança de mansões tristes que traziam ao nosso herói recordações, algumas simples e alegres, outras doloridas e tristes. Mas aquela casinha não era uma casinha qualquer, nela havia uma princesa, sentada na varanda, ainda em construção, a princesinha tocava bandolim, um som que o nosso amigo admirava, que ouvia varias vezes em casa, aquilo por estar comum na sua rotina fez-lho se apaixonar não só pela perfeição da interpretação da melodia, mas também por quem a fazia.
É uma chance, no meio da rua das lembranças, aparece algo novo, que está se fazendo, algo que possa vir a ser um casebre sombrio, ou se transforme em algo magnífico, que aquela rua nunca viu.

Felipe Sousa Cerqueira.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Seu Carlos.

No carro voltando da borracharia:

- Olha a mulher gorda! Dá pra lutar karatê! Disse o velhinho, sempre como o seu ar de brincadeira, Flávio riu e corrigiu.
- É sumô! Achou curioso, o fato do avô ter dito "mulher gorda", bastava dizer "gorda", só que aquele "mulher gorda" soou tão engraçado.
- Da proxima vez você vai pra roça, lá é melhor de dirigir, tem um monte de ladeira, e alem do mais a pista de aviação tá cheia de lixo.
- É, hoje eu fui treinar ré e entrou um monte de mosca no carro.
- Êin? Éca, moscas!
Flávio riu novamente, nunca tinha visto o avô com nojo de nada...
- Aquilo é uma falta de respeito, tanto lixo, vidro, jogado ali, isso muda, deixa o avião de um deputado baixar por aqui e se embolar com um urubú, ai vc vai ver neguinho reformar a pista. Isso fica feio para a cidade...
- Além de foder com a natureza..
- Pois é!
- Até jegue tinha la! Disse Flávio com um ar de riso.
- É bom! Você faz de pedestre, vamos comprar uns cocos.

Felipe Sousa Cerqueira

Ele

Ele foi importante,
serviu para fazer esquecer.
Ele foi espirituoso,
serviu para mandar rosas.
Ele foi guerreiro,
serviu para apanhar do amor.
Ele foi triste,
serviu para alegrar o circo.

Ele foi amado,
serviu ser correspondido.

Ele foi enganado,
serviu ser honesto.

Ele foi vingança,
serviu amar como nunca havia amado.

Ele foi perfeito,
serviu a ela.

Ele foi doce,
serviu ser amigo.

Ele foi carinho,
serviu ser atenção.

Ele foi prisioneiro,
serviu.

Felipe Sousa Cerqueira.

EU

O amor não é tão ruim, tem o seu lado bom, eu preciso de um amor, que vença a minha opinião sobre as coisas do mundo, que me mate quando eu viver para mim, assim é o meu amor, forte, eterno e invisível.
Há Fernando em mim, é o amor que eu sinto por mim mesmo, as vezes chato, as vezes encantador, e as vezes humilhante.
A minha vida é a noite escura. Sozinho, neste momento, em silencio, vem o amor, algo que anda comigo que eu não sei descrever.

Felipe Sousa Cerqueira.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O amor partir

Eu te tinha,

E me sentia igual,

Até que em nós

Tudo ruiu,

E o que talvez fosse

A representação mais pura

De mim

Para você,

Transmutou-se pro nada,

Num pequeno ser.

E de ser

Já nem éramos!

Ébanos ou tupiniquins,

Nos perdemos

Nas miscelânea louca

Desses dias sozinhos,

Onde cartas extensas

Por estêncil,

Enumeravam as perdas.

Danos nos romperam os lábios

E o sol,

Nas beiradas,

Ficou menos amarelo;

Menos amarelo em seus olhos

E na cor de sua pele;

E mesmo osculando o vendo

Perdia-me em coisas concretas,

Coisas incertas que não deixariam

Que coubesses em mim.

Eu ri -

Ou era choro aquele riso?

Só sei que assim então

Eu quis,

Por que o além de nós me trava a traquéia,

Fazendo-me implorar por algum ar menos promiscuo,

Mas eu não vejo desperdício,

Nos seus vícios mais ilícitos.

Não que o meu desejo seja rir,

Tentei apenas forçar o amor a partir.

Ir.

Kauam

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A musa e a noite.

Tão linda e formosa que deixava Fernando boquiaberto. Tinha esquecido da sensação de se sentir apaixonado, aquela mulher era tudo que o interessava ali, talvez não passasse de um desejo bobo, aquilo tudo era rápido, as palavras e gestos da garota, nunca tinha achado alguém tão parecido com si mesmo a principio. Ela cantou:

-Drão, o amor da gente é como um grão..” aquilo entrou na alma de Fernando como uma dúzia de adagas banhadas ao ácido mais corrosivo.

Foi a partir deste momento que a garota deixou de ser uma simples garota e passou a ser encantadora, quanto a musica, ah! Era a musica que Fernando vivia cantarolando, talvez tenha sido por isso que a cantoria o enfeitiçou tanto.

Tudo era mágico e ao mesmo tempo triste, percebeu a semelhança tarde, vinha no intuito de beijá-la desde o inicio do passeio, só que a garota tinha um pretendente. Fernando como bom ator da vida que é, não aparentava a melancolia que trazia, e lançou três ou mais cantadas na noite, aquela sim, era a sua musa do verão. Tão encantadora e semelhante a ele. Descobriu outra coincidência, estavam numa sorveteria, e Fernando conversava com um amigo.

-Avê! Você botou o sorvete puro, havia tantas guloseimas para acompanhar o sorvete, e você não botou nada, que louco! Falou o amigo não em um ato de critica, estava mais para aquele comentário que quebra o silencio. Então Fernando:

-Pois é, eu só gosto de sorvete com leite em pó. E já que não tinha...

A musa olhou para Fernando e com um ar de concordância. Foi ai que Fernando percebeu todas as semelhanças da moça, esqueceu das conversas e do sorvete, e ficou a observá-la, a pele morena, os traços tão bem esculpidos desenhados pelos melhores arquitetos de Deus. Aquela noite se tornou mágica por esses mínimos detalhes, aliás, quantas noites se ganham só por causa de um sorriso ou olhar?! E quantos dias se perdem por causa de um único encontro ao acaso?! Enfim a musa de qualquer maneira era bela, era linda, era mágica, assim como os gestos, e a noite.

Felipe Sousa Cerqueira.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Listras

- Você me ama? Ele pensou olhando-a nos olhos.
Viu aquele sorriso que descia a sua garganta como uma dose de qualquer coisa que queime e mate, e depois sentiu-se tonto, era a vertigem do amor, algo que os apaixonados mal correspondidos sentiram algum dia. Tudo o que passava na sua cabeça eram lembranças bagunçadas, e em algum lugar na sua cabeça tocava algo, era Lobão, "vou te levar...". Aquilo o deixava mais tonto, mais apaixonado, a única coisa que deixava Fernando lúcido era o assunto, e os olhares que lançava contra uma menina que usava listras.
- Como eu sou cachorro! Pensou agora lúcido.
A musica que tocava agora em sua mente se resumia em Elvis.
- Eu, louco apaixonado que sou, estou aqui, lançando flertes contra uma amiga da minha ex namorada... Puf! Foi o som que emitiu com a boca, como se estivesse debochando de si mesmo.
Duas foram embora, a menina de listras e outra, só restam ele, o primo, a ex, e outra menina que não simpatizou muito.
-Essa menina não foi com minha cara! Pensou, cada vez mais lúcido.
Começaram os três, Fernando tratou logo de excluir-se da conversa.
-Tenho que arrumar uma maneira de sair daqui.
A vertigem voltava aos poucos, tinha que ocupar a mente com outras meninas, era difícil, a menina das listras havia saído, então pediu licença e saiu para uma livraria próxima, ia ler quadrinhos cômicos, isso te fazia bem, sem mulheres, sem a ex, lia e ria.
- A vertigem vai embora, a alegria vem aos poucos à tona, tudo o que eu queria era um travesseiro, listrado.

Felipe Sousa Cerqueira.

VODKA

Tudo que eu preciso é de uma boa dose de vodka, não para me alcoolizar, mas uma dose poética de vodka, que sirva para conformar as mágoas, e não afoga-las. Uma dose que lave a minha cara cínica, que entre na garganta queimando as palavras duras que eu te direi, que o efeito limpe a minha mente, para que eu esqueça tudo de ruim que te fiz.
Essa vodka sou eu mesmo, crescendo, amadurecendo, percebendo o quão distante você está de mim, essa dose é a cura do meu vício de você, dose santa, qualquer apaixonado daria a vida por uma dose dessa, que eu consegui sozinho.
-Bebo!
Agora estou ao seu lado, ainda cínico, mas eu preciso de você, da nossa história, pra me lembrar que estou aqui, para você, e para todas as que querem algo de bom de mim, mas você é insuportavelmente a minha vodka às melhores horas.
"O velho barco toda vez que vê o mar, fica confuso, com vontade de zarpar, mas ver o mar as vezes bem que é preciso, pra ter certeza de ainda estar-se vivo, mesmo que o casco esteja velho e corroído".

Felipe Sousa Cerqueira