domingo, 25 de abril de 2010

Quarto Escuro/Beijo Divã

Não sei descrever sensações, principalmente aquela indescritível. A pior aflição é aquela que não conseguimos identificar, mas que no fundo sei o que é, e, não queremos adimitir. Vou tentar descrever.
Imagine um quarto, escuro e cheio de gritos, onde se escutam pensamentos, e, ao mesmo tempo que eles estão sendo processados estão se esvaindo... é realmente um quarto assustador. Agora existe no final daquela escuridão confusa, um ponto, uma brecha, uma estrela. Vou colocar melhor, uma fechadura que, como todas as outras que trancam quartos, brilha, um mísero ponto, no meio do breu. Parece que quando o som do quarto torna-se mais insuportável, e que quanto mais insuportável fica, mais desistente da vida ficamos, sempre aparece alguem com a chave desse maldito quarto. A chave é um beijo. Um beijo que dá a luz ao quarto, que some com os pensamentos dolorosos. Quem vem com o beijo e a luz, vem com o cheiro, e deixa o impregnado na roupa. Ah! Que beijo! O chamo de beijo divã!
Divã por que é como se saissemos de uma sessao com o analista, como se entregassemos os problemas ao grande beijo, na verdade, ao pequeno espaço de beijar.
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É nesse pequeno espaço que desabafo sem dizer uma palavra, que morro sem perder a vida, que me desligo do mundo mesmo que ele acabe, é nesse espaço que me deito no divã, sem ao menos deitar.
Felipe Sousa Cerqueira.

sábado, 24 de abril de 2010

Quando abro um livro

Quando abro um livro não sei o que me espera, por mais que a capa seja bonita e ipnotizante há sempre uma contradição em relação ao que realmente diz o enredo. Assim é a vida. Acordo hoje, vejo um céu limpo e lindo, mas não sei o que realmente aquele céu, que destaca o dia, quer de mim. Posso passar por uma esquina e ver a mulher da minha vida, sem perceber quem ela realmente é. Entro na padaria e vejo um senhor, que pode vir a ser um grande amigo, em outro dia, que talvez, não faça sol, ou talvez nem seja dia.
O mais estranho são as situações que atribuo a filmes que assisto, ou a romances que leio. Aquela namorada que um dia disse -"eu te amo"- e em outro disse -"não dá mais"-, por mais que a indiferença fique, é a lei feminina, passar por mim e olhar com aquele olhar de despir, e dizer um "oi" tão chulo que acaba com o céu lindo e azul que encontro ao acordar. O meu dia acaba e fecho o livro.

Felipe Sousa Cerqueira

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Frio

É Páscoa, sou uma peça de qualquer guarda-roupa que só se usa nesta época do ano, em que tempo é frio, contraditório ao que eu passo as pessoas. Sonho eu, roupa velha e mal usada que sou, com aquele chuvisco em que se abraçavam os namorados, trocando seus perfumes, um dia um perfume ficou em mim, impregnado! Impregnando todo o meu guarda-roupa. O meu companheiro, que descança comigo, é o mofo. As naftalinas se dissolvem, como uma paixão de verão, inimigo! Muita gente não me tem, mas queria, por passar aquelas noites frias, a fio, a sós. Aquele velho agasalho, que um dia guardou o perfume da pessoa amada, que um dia protegeu da chuva, que talvez, fez lembrar que a saudade não é solidão, que o abraço não é vago, e que o frio, fora da realidade de suas mangas é sincero, como o amor a quem pertence.

Felipe Sousa Cerqueira