quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Um cheiro de batom.

Curioso é o cheiro do batom, tem um cheirinho de infância, meio de massinha, de mansinha. É meio de comer aos poucos. Simples e bonito. É inocente. Mas recheia as noites de prazer com o teu batom, lambe e suja, beija e cospe. É uma contradição esse batom. Esse seu, nosso que ainda não foi meu. Não me sujou por que é claro, é puro. Mesmo vermelho forte que seja, é puro. Para ti é só um batom. Para mim um sonho em que danço. Sou rico por o estar observando desenhar o seu sorriso, em tua face, na parede do meu quarto, na testa do meu sonho. Tem gente que dorme e olha pra testa de olhos fechados, sou eu procurando o seu batom na penteadeira. E a marca, na testa? Ele não tem cor, nem claro nem escuro, é só um devaneio meu. De qualquer forma a cor desse batom é pura, como a infância, os primeiros amores, que a gente acha que é amor, mas é só um batom pra sujar a gente. Mas o teu batom é diferente, não me suja mesmo sendo vermelho Ferrari. É muito engraçado sentir um batom que não toca na gente. O teu creme no instante em que sorri, a tua sensação de que aquilo nunca vai sair, que você não quer que saia, nem a cor, invisível, nem o cheiro. O que é mais engraçada é a contradição, ora é vermelho ora rosadinha, que coisa, que cor. A maneira como entregas a tua boca a ele, o batom, traz em si o romantismo de outrora, daquela infância em que pintava a barriga onde dormia, desenhava nela um rosto, e tentava fazer um sorriso perfeito, e o fez muito bem, o fez seu. É o batom criador, o vermelho anterior, que não suja. E ao desmanchar a tua alegria, borra-o no travesseiro, grita, esperneia por uma vida melhor, por um batom mais sutil, e grita mais uma vez, a piedade do batom vem sujar todo o teu rosto, o vermelho ainda é inofensivo, mas suja, por que quer que suje, por que quer outro batom. E então no espaço de tempo entre a cama e a penteadeira existe o espelho que mostra toda a mentira anteriormente dita. O batom volta a ser uma simples cor depois do sono, do sonho, de outro amor. Os batons são diferentes, cada um com sua com, mas todos carregam um mesmo tom. A graça, a beleza, a infância, o amor, as lágrimas, tudo é sutil, tudo tem aquele mesmo cheiro que me intriga, me faz rir, me vidra, me entristece, me devora, e que eu devoro em sonho e quando acordo, ele é de batom.

Felipe Sousa Cerqueira.

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