quarta-feira, 3 de março de 2010

II

As coisas agora se descomplicam na mesma velocidade em que se complicam novamente e discorrer sobre saudade, ausência e solidão faz doer muita coisa em mim. O tempo do próximo passo em falso está sendo cronometrado em qualquer relógio vagabundo no pulso do destino e eu, vestido com esses trapos da condição humana, simplesmente sigo em direção a próxima queda do próximo abismo, irracional como um cão e como todos os outros.
Enquanto eu brinco de hoje, um amanhã qualquer é esboçado no pano do vão com nanquin e no palco do agora em mim, alguma representação medíocre de um texto de Caio Fernando Abreu se desenvolve lentamente, como uma tortura com qualquer finalidade doentia. Repousam ainda, em meus olhos, as últimas imagens relevantes que se repetem numa montagem privada, toda minha, e eu, como único e doentio expectador as repito, tentando encontrar no meio de toda essa parafernália - todas essas sensações cotidianas como sabores, cheiros e sons que aderem a minha existência como pequenos suvenires – alguma imagem que me remeta àquele antigo espaço de tempo onde eu realmente me sentia vivo, seguro; onde eu realmente sentia meu eu.
Me perco agora por entre essas colunas de marfim que se estendem imponentes em meu peito, me perco nesse hiato e canso de me perder. Não descanso, pois foi o que me sobrou desde que tudo em mim desvaneceu, virou cinza e não existem essas tais aves mitológicas, que dramática e significativamente ressurgem das cinzas. Existe apenas eu e todo o resto da humanidade, tentando encontrar um motivo razoável para continuar martelando os dedos em vez do prego.
Kauam

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